Um estilista competente desenvolve coleções que vão ter boa aceitação pelo consumidor, fazendo a alegria do varejo. Mas quando é realmente bom, o estilista capta e devolve, sob a forma de moda, sensibilidades fortes que passeiam por aí, prontas para serem farejadas. Partindo desse princípio, o que os desfiles da 19ª edição do SPFW têm a nos dizer sobre o adolescente da chamada "geração digital"? Que aspectos da identidade teen foram evocados?
O adolescente se interessa, sobretudo, por aquilo que diz respeito a si próprio e, por extensão, por aquilo que "fala" de si. Daí o interesse redobrado, neste presente imerso em homogeneização global, por aquilo que nos ajuda a compreender o que temos de específico, de diferente. Quem tem menos de 20 anos e viu a exposição de fotografias de Otto Stupakoff no Pavilhão da Bienal, aprendeu que a busca por uma identidade da moda brasileira começou faz tempo, há pelo menos 40 anos. Agora, parece ter chegado, enfim, a hora da afirmação, a julgar pela vontade de algumas marcas de beber das nossas fontes mais profundas, como o "meio do mundo" do sertão, o futebol ou a imigração, mas sem complexos nem estereótipos.
E por falar em futebol, o interesse crescente pelos esportes é a manifestação do forte desejo de relacionar-se e de criar laços (mais um efeito paradoxal da era hiper-individualista). Um sinal particularmente instigante, nesse sentido, é a diminuição da prática de musculação entre os gays norte-americanos, que migram para os esportes coletivos. Essa força aglutinadora é ainda mais forte no futebol, que a globalização transformou em esporte universal, pelo seu poder de apaixonar, de mover multidões e criar conexões e identificação entre os indivíduos. Foi por apertar algumas dessas teclas que o desfile da V-Rom emocionou a tal ponto as pessoas presentes. O astral do estádio, o desfile final do time pelas arquibancadas, o épico das bandeiras, tudo isso fez da apresentação um grande "evento", conseguindo aquilo que se torna cada vez mais raro, e por isso mesmo desejado, nas temporadas de moda: o frisson do laço instantaneamente criado entre o público e a coleção apresentada, como se todos formassem um único e indivisível todo, vibrando na mesma sintonia (o que os gregos chamavam de "catarse").
Alguns desfiles falaram, também, de um desejo de imediatismo, que é uma característica óbvia da geração digital. O interessante, depois de muitos anos de historicismo, é que a moda parece começar a responder ao cansaço do consumidor por tendências coladas apenas no passado ou no futuro: o que se quer são roupas que tenham a ver com o presente, com o agora. Portanto, quando os estilistas olham para as décadas do século XX (como fizeram, em maior ou menor medida, Sommer, V-Rom, Zapping, Caio Gobbi, Cavalera ou Tritton ? esta última, convenhamos, numa leitura mais em "primeiro grau" dos anos 70), fazem-no, antes, por ser impossível "zerar" o quadro e ignorar a história, do que por uma tentativa de decalcar uma outra época no contemporâneo, o que não faz mais nenhum sentido.
Especialmente para o jovem, que não deixa margem a dúvidas, qualificando como "da hora" tudo o que lhe agrada.
De criadores e marcas "jovens", espera-se que sejam, justamente, jovens, modernos, arrojados, até mesmo iconoclastas, revolucionários... Mas é difícil manter e alimentar tanta expectativa. Do ponto de vista do estilista ou da marca, um rótulo desses pode virar uma camisa-de-força, uma armadilha a ser evitada. O que importa é manter um bom nível de experimentação, sem perder a identidade. Comentou-se que algumas marcas jovens do SPFW fizeram desfiles mais "sérios", mais "adultos". À primeira vista, é algo que parece estar na contramão dos valores de hoje e do anseio generalizado por parecer cada vez mais jovem. No entanto, um dos sinais mais interessantes que vêm do universo teen (em que pese o fato de que toda generalização é perigosa), é que os adolescentes começam a querer ser mais respeitados, descolando-se de uma imagem infantilizada - ou, simplesmente, não estão nem um pouco preocupados em "parecer jovens" e, sim, em ser eles mesmos, cabendo a seus pais a obsessão por rejuvenescer. Normal, a ordem teen é mesmo contradizer. Algumas marcas mais antenadas, espertamente, já entenderam e nos mandaram esse recado.
* Dario Caldas é diretor do Observatório de Sinais. Recentemente, estudou o tema juventude e cultura digital para um projeto realizado para o Sesc São Paulo. Durante um ano, pesquisou todos os aspectos do universo jovem para um projeto do IBGM sobre o consumo de jóias.






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